A jornalista, ensaista e escritora Janet Malcolm está lançando mais uma de suas obras: "Duas Vidas: Gertrude e Alice". O livro fala da vida da escritora Gertrude Stein, sua relação de anos com Alice e atormentada efervescência cultural em que as duas viviam inseridas. Gertrude promovia saraus em Paris frequentados nada menos por Matisse e Picasso, só para se ter uma idéia. Inegavelmente, eram mulheres vanguardistas e a frente de seu tempo. O livro de Janet levanta a questão: como duas lésbicas, casadas, judias, sobreviveram a invasão Nazista na França ocupada?
Fora o contexto histórico, Malcolm analisa como o casamento de Gertrude e Alice pôde dar certo. As duas tinham temperamentos opostos e enquanto passavam pelas duas grandes guerras, travavam entre elas uma batalha particular.
Uma ressalva deve ser feita, não comprem achando que lerão uma biografia redonda. Uma biografia romanceada sobre o casal lésbico. Com começo, meio e fim. Fácil de se ler. Janet Malcolm é uma escritora muito controversa. Dela, já li alguns livros. E ao mesmo tempo que a amo também a odeio. Apesar de escrever para uma das maiores revistas do mundo, a New Yorker, Janet já respondeu a um processo por "fabricação de frases". Nada dela é simples. Ela não faz somente literatura, biografia ou jornalismo investigativo. Ela faz tudo isso e mais. Tudo que Malcolm escreve dá voltas para se chegar ao ápice: metajornalismo e metaliteratura. Todas as suas obras trazem junto um grande questionamento e uma crítica sobre o escrever, o investigar e o viver embuído nesse mecanismo de produção literária. Para quem não é dá área ou se interessa pelo assunto, a coisa pode ser muito chata.
O primeiro livro que li de Malcolm, o "Jornalista e o Assassino", de 1990, foi devorado numa viagem de ônibus entre Belo Horizonte e Rio. Nele, a autora questiona a relação entre jornalistas e suas fontes, através da análise do relacionamento entre o jornalista Joe McGinniss com Jefrrey MacDonald, condenado pelos assassinatos da mulher grávida e de duas filhas em 1979. MacDonalds garantiu ao jornalista total acesso à sua defesa. McGinniss deu a entender que acreditava na inocência do acusado mesmo após sua condenação, como mostram cartas enviadas à cadeia. Quando ele finalmente publicou seu livro sobre o assunto (Fatal vision, Putnam Pub Group, 1983), retratou MacDonald como um psicopata. Na época, eu tinha acabado de entrar para a faculdade de Jornalismo e Malcolm fazia todo o sentido para mim.
Assim começa o livro:
"Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não-ficcional aprende - quando o artigo ou livro aparece - a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam em liberdade de expressão e do "direito do público de saber"; os menos talentosos falam sobre Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.
A catástrofe, para aquele que é tema do escrito, não é uma simples questão de um retrato pouco lisonjeiro, ou de uma apresentação errada de suas opiniões; o que dói, o que envenena e algumas vezes leva a extremos de desejo de vingança, é o engano de que foi vítima. Ao ler o artigo ou livro em questão, ele tem de enfrentar o fato de que o jornalista - que parecia tão amigável e solidário, tão interessado em entendê-lo plenamente, tão notavelmente sintonizado com o seu modo de ver as coisas - nunca teve a menor intenção de colaborar com ele na sua história, mas pretendia, o tempo todo, escrever a sua própria história".
Como se pode imaginar, Janet Malcolm foi acusada de tudo e qualquer coisa pela classe profissional.
Já em "A Mulher Calada", Janet mergulha na história da escritora Silvia Plath, sua morte, o marido Ted Hughes, também escritor e herdeiro das obras, e a biografia escrita por Anne Stevenson - "Amarga Fama". As feministas da época e os fãs de Sylvia acusaram Hughes de ter sido o responsável pelo suicídio da escritora. Alegavam que Ted Hughes só liberou a biografia escrita por Stevenson porque esta lhe favorecia. Que em nada "Amarga Fama" retratava a verdadeira história de Plath, seu tormento e angustia.
Já em "Psicanálise, a Profissão impossível", Janet critica a psicanálise, a fala como método de tratamento e a relação entre terapeutas e pacientes. Recentemente, Malcolm afirmou que o "email é um veículo de má redação" . Ou seja, Janet adora falar de assuntos atuais, levantar polêmicas e críticas. Ora de um radicalismo profundo, onde ela mesmo se perde. No livro sobre Gertrude Stein e Alice B. Toklas, Janet explora mais uma vez o universo das biografias e suas verdades. Ler Janet Malcolm é o oposto de ler best sellers. Resta saber o que você está querendo....












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